sábado, 17 de janeiro de 2015

Conto: Cathos - Parte I

2 comentários

         A saliva quente pingava ininterrupta sobre sua cabeleira ruiva. Observou a gosma escorrer pela franja com certa repugnância, mas não havia muito a fazer agora. Girou o corpo para a esquerda, para a direita e, sem encontrar brechas para uma fuga segura, voltou para a posição inicial. Seu transponder não emitia nem recebia sinal algum. A verdade é que o pequeno aparelho prateado estava coberto pela saliva corrosiva de um daqueles insetos gigantes que agora infestavam a superfície deserta do planeta EKS-10.

         Cathos, uma das novas recrutas da força especial, havia sido enviada para a quase-colônia com a promessa de uma carreira próspera no grupo militar de Antures, mas, desde sua chegada, não havia encontrado nada além do fétido odor da decomposição de seus companheiros. Não comia há alguns dias, e a exaustão aos poucos tomava-lhe o corpo acostumado à fartura de sua terra natal. Queria chorar, é verdade, mas faltavam-lhe forças para expressar a menor das angústias.

         Segurou a respiração. Se quisesse sair dali, seria essa a hora. Apertou os olhos escuros na esperança de que a visão turva pudesse focar no ponto negro há alguns metros. O inseto guinchou. Estava ficando sem tempo. Curvou o corpo para a frente e ergueu o rosto para ver melhor. As patas dianteiras, cobertas por escamas e tingidas com o sangue de outros recrutas, agitavam-se violentas no ar. O monstro podia sentir seu cheiro e não demoraria muito para alcançá-la. Cathos saltou, sem forças, e equilibrou-se no salto baixo da bota de alumínio. O chão atrás de si tremeu com o impacto do imenso ser que acabava de localizá-la. Segurando o estômago ferido, a garota disparou em direção ao posto de segurança que mal de ocultava por detrás de alguns escombros. Seus passos oscilavam pela fraqueza, pelo medo, pela insegurança e pelo soprar quente do animal que já a alcançava. Ofegava, desesperada, e, em um movimento instintivo, jogou-se no chão ao ouvir o som do veneno sendo disparado em sua direção. O líquido verde lima caiu ao seu lado, respingando brutalmente em suas pernas. O grito de dor não pôde ser contido, mas não havia tempo para sofrer, precisava alcançar o posto.

         Sem forças para colocar-se de pé, seguiu rastejando para o seu destino. As mãos amareladas enganchavam-se na terra seca em busca de algum impulso para a frente e as pernas não obedeciam mais ao seu comando desesperado. Era o seu fim. Fechou os olhos ao sentir o inseto monstruoso se aproximar e virou o corpo. Não permitiria que fosse abatida de costas. Respirou fundo e, naquela fração de segundo, contemplou o predador furioso à sua frente. O coração apertou. Dizem que quando estamos perto da morte um pequeno filme passa em nossa mente, mas Cathos não teve esse privilégio. Encarou os imensos olhos vermelhos e soltou seu último suspiro...

– Para o inferno! – Seu último momento fora subitamente interrompido.

         À sua frente, dezenas de balas ricochetearam no ar, lançando o inseto para trás com uma força descabida. Estava salva? Virou o rosto para trás, mas não teve tempo de ver o que se passava. Uma figura alta ergueu-a no colo e saiu em disparada para o posto de segurança.

– Quem...? – Balbuciou entre ofegos, mas não teve resposta. A visão embaçada logo obscureceu e, aos poucos, desapareceu o que lhe restava de consciência.

...

    Tossiu com força, tentando livrar-se das amarras que a prendiam na maca. A mente confusa doía-lhe a cabeça, obrigando-a a respirar profundamente para reaver o que lhe restava de consciência.
Estava em um quarto bem iluminado, cercada por infinidades de aparelhos que jamais havia visto antes. Vestia uma fina camisola de tecido cru e, apesar de não ver muito bem, podia sentir as suturas e curativos que espalhavam-se por sobre a pele coberta.

“Vush”

    O som leve da porta de pressão chamou a sua atenção do outro lado da sala. Voltou o rosto, ainda incomodada por estar presa, e reparou na figura bem vestida que se aproximava.

 – Código 8823, Cathos Merelidan, estou certo? – A sobrancelha loura daquele homem ergueu-se em sincronia com o tom questionador de sua voz. O rosto largo, adornado por dois rubis que deveriam ser seus olhos, capturaram Cathos com violência. Tentou reparar nos outros detalhes, no casaco negro de veludo que usava, nos broches de ouro pendurados em sua lapela, na arma de cobre que trazia à cintura, mas nada disso parecia importar-lhe mais que aqueles olhos.

– Sim... – Sussurrou entre tosses, percebendo o pulmão apertado em seu peito. Ele parou, examinando-a com as pupilas vermelhas. Cathos lembrou-se de um coelho de estimação que tivera quando menor. Havia o mesmo brilho fascinantemente avermelhado nos olhos. "Seriam de verdade?" Questionou mentalmente, observando-o em silêncio.

– Você pertencia ao grupo 12 de depuração. Exército de Antures. Residência de Cartélia. – Fez-se um breve silêncio, como se ele esperasse qualquer resposta da garota. – Foram todos exterminados.

– Eu vi. – Apesar do fascínio que a dominava, respondeu de maneira ríspida, esforçando-se por retirar da mente a imagem dolorida dos companheiros estraçalhados.

– Todos... menos você. – Parou mais uma vez e, sem resposta, dignou-se a continuar com o mesmo tom pesado de sua voz. – ...e o código 8822, Gallahad.

– Gallahad! – O grito saiu pesado de seu peito. Haviam se separado há dois dias, estava certa de que ele não sobrevivera. Parou, extasiada, os sentimentos embrulhando-se em seu peito. Estava tão absorta na própria perdição que não reparara na expressão de interesse que agora cobria o rosto da figura à sua frente.

– Sua missão foi abortada. Bem vinda ao grupo 13 de depuração. Sou Victor Marshall, seu novo capitão. – Com uma rápida mesura ele se virou e afastou-se alguns passos, confiante de que a garota não deixaria o assunto terminar por ali.

– E... e Gallahad? – A reação fora exatamente como ele previra. Voltou, segurando o sorriso cínico no rosto.

– Sinto muito, senhorita... Cathos. – Franzia a testa com dedicado artífice, ensaiando movimentos refinados com as mãos. – Apesar de nossos radares detectarem a presença viva do código 8822, não temos condições de enviar uma equipe de resgate à sua localidade.

    Cathos suspirou pesarosa. Gallahad havia sido um amigo. Talvez mais do que isso. Como poderia manter a consciência tranquila sabendo que não fizera o possível para salvá-lo? Segurou as lágrimas que subiam quentes aos seus olhos. Não choraria. Não agora.

– Vamos, vamos... – A voz aveludada da Victor soprou próximo de seu ouvido. A mão enluvada tocou-lhe o rosto com cuidado, erguendo-o para cima. Cathos defrontou aqueles olhos vermelhos com um misto de raiva e frustração. – Não precisa chorar... Por que não fazemos um acordo?
– Eu estou amarrada em uma maca, sem forças, sem rumo, sem minhas armas... Há mesmo algo que eu possa lhe oferecer além do peso de minha companhia? – A voz embargada destoava do olhar ferino que se estampava agora em seu rosto.

– Não, de fato... – Acariciou a pele ferida de Cathos, admirando-lhe os olhos escuros. Não era exatamente bela, mas havia algo de delicioso em sua expressão atrevida que o divertia de sobremaneira. – 8822 foi localizado na plataforma Jetzbell, há 320km daqui. Deve manter-se seguro pelos próximos dois ou três meses, mas não passará disso. – Cathos engoliu em seco, sentida pela própria impotência. – Trabalhe para mim, Cathos, e converterei sua dedicação em socorro ao seu... amigo.

– Sua autoridade de capitão já me colocou em sua equipe... Não é como se eu tivesse qualquer escolha...

– Trabalhe para mim, Cathos... não para o Império. – Falou mais sério. Ela encarou-o em silêncio. Havia alguma diferença...? Tentou raciocinar a respeito, mas nada além da dor vinha à sua mente agora.

– Não sei do que...

– Para... Mim... – Repetiu pesaroso, encurralando-a contra a parede. Não que ela pudesse se mover, mas a sensação de controle que o gesto lhe trazia era extasiante. A garota baixou os olhos, deixando que o pouco ar que lhe cabia nos pulmões se perdesse num sopro dolorido. Voltou-se para aquele rosto pálido e assentiu, sem força para continuar com a discussão. Victor sorriu, apertando as laterais dos olhos, e deixou-lhe um beijo leve nos lábios secos. 

– Nosso contrato está selado. Bem vinda à minha tripulação, senhorita Cathos...

    O caminhar elegante ecoou por um tempo até que ele desaparecesse no longo corredor prateado. Incerta do que havia acabado de acontecer, Cathos fechou os olhos na vã esperança de que, ao abri-los, estaria livre de todo aquele pesadelo.
(Continua)

2 comentários :

  1. 1º Estou surpreso com o estilo do texto, nunca imaginei que você escrevia contos sci-fi também, e tão bem aliás.
    2º Fiquei curioso com a ambientação e quero mais.
    3º COMO O MERCADO EDITORIAL TE DEIXA LIVRE COM TANTO TALENTO-Q

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    1. Ahhh obrigada por ler! \*3*/ huhuhuh
      1. Na verdade eu nunca tinha escrito sci-fi na vida Estou acostumada aos contos de época, mas nunca do futuro. A Ingrid propôs um desafio pra mim: pediu um texto em sci-fi e em 3a pessoa (já que sempre escrevo em 1a) hahah Aí deu nisso! Obrigada;3; <3

      2. Vou postar mais uma continuação (eu acho que será só mais uma... hhaha) se o fanservice me deixar evoluir o cenário. HAHA

      3. UAEHUAHE Ainda não estou devidamente (comercialmente) polida!!! xDD

      Obrigada por leeeerrr <3

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